O QUE EU VI.
June 24, 2013
Fui à manifestação sem um grupo de conhecidos. Até encontrei
uma galera boa, mas acabei andando “só”.
Andei logo à frente da manifestação, perto de uma galera da imprensa, para ter uma visão melhor de quem estava no primeiro pelotão do movimento, e de como a polícia preparava a logística do trajeto. Vi alguns “manifestantes” que passaram a conversar com os policiais motorizados a partir da Central. “Manifestantes” que gritavam palavras de ordem, de repente, paravam, vinham à frente e conversavam longamente com policiais, que diminuíam a velocidade das motos para poderem manter o diálogo bem próximo. Isso aconteceu seguidas vezes, e foi meio perturbador.
Quando estava na altura da Praça Onze, comecei a ouvir barulhos de explosões esparsas. Corri em direção às explosões, pois tinha acabado de descobrir pelo celular que uma amiga estava por ali. Cheguei perto e não havia qualquer sinal de intranquilidade nos manifestantes.
Chegando à prefeitura, vi a cavalaria a postos em frente, vi os policiais nas escadarias, vi os policiais motorizados parando mais adiante. Vi também os “manifestantes” que conversaram com os policiais se colocando próximos à cavalaria, onde eu também estava, mudos (um grupo bem reduzido). Vi a grande manifestação chegando logo em seguida, todo mundo se amontoando no gramado, as palavras de ordem, os cartazes. O povo da galhofa, o povo mais exaltado, indignado, o povo doido pra quebrar tudo e o povo que foi pra acompanhar os outros povos, de início, todos juntos.
Vi quando começou a ficar mais evidente quem fazia parte do grupo que ia, definitivamente, “descer a ladeira”: não fazem exigências, não têm demandas, só gritam para conseguirem mais pessoas dispostas a ir pra cima, pra quebrar a polícia, pra quebrar os portões, pra quebrar a prefeitura, pra... pra quê, mesmo?
Vi grupos de pessoas gritando “f*deu, corre!!!” e provocando verdadeiros estouros de manifestantes assustados, correndo pra longe, apenas para conseguirem um lugar mais próximo, ou uma visão mais privilegiada da prefeitura.
Saí de perto dessa galera porque vi que ia dar problema, muito problema. O povo começou a ficar longe deles, pero no mucho. Eu vi que era preciso ficar um pouco mais distante e no alto, e fiquei.
Aí, eu vi o que não podia ser: vi “manifestantes” jogarem bombas, três bombas, nos próprios manifestantes que estavam mais próximos à polícia e à prefeitura. Não, não eram bombas em direção à polícia, com uma trajetória mal calculada. As três bombas não teriam sido “mal calculadas” perfeitamente a ponto de acertarem o grupo que estava logo atrás da “linha de frente” de manifestantes, fazendo com que tivessem a certeza instintiva de que as bombas foram jogadas pela polícia e levando-os a se refugiarem no próprio grupo que os bombardeou.
Vi, já de um pouco mais longe, os bombardeiros, os bombardeados e um grupo que, em instantes, se tornou bem grande, atirarem tudo o que tivessem à mão na polícia, acreditando estar reagindo a um ataque desta e, aí sim, vi a polícia ser liberada contra a população.
Quando isso aconteceu, vi que a coisa rola bem do jeito que um amigo meu descreveu: “não há confronto. É só um massacre”.
Quando a polícia avançou sobre o povo, foi aberta a temporada de caça.
Vi as bombas de gás sendo lançadas, e, pouco depois, não vi mais nada. Esse gás é uma droga, mesmo.
Quando voltei a enxergar, vi a cavalaria batendo e empurrando as pessoas, que corriam às cegas por causa do gás, para as vias com o trânsito aberto. As pessoas não foram atropeladas porque as primeiras que atravessaram, já se desesperaram para tentar parar o trânsito, e conseguiram, momentaneamente.
Nesse momento, vi pessoas que vivem embaixo desses elevados, em condição subumana, reagirem de acordo: jogaram pedras nos carros e ônibus parados, levando o povo motorizado a se encher de medo e raiva, e a pista voltou a andar.
Em todas essas situações, vi o quanto é fácil jogar o povo contra o povo.
Quando passei do elevado, em direção à Praça da Bandeira, vi que a polícia levou a temporada de caça a sério. As bombas iam ficando mais próximas, não importava o quanto eu me afastasse.
Acabei indo embora. Acredito que não me feri porque me mantive calmo, ao invés de pensar com a cabeça da multidão, e usei caminhos que me oferecessem liberdade maior.
Ao fim de tudo isso, depois que cheguei em casa, mais calmo, pensei sobre tudo isso que vi, e comecei a ver muitas outras coisas.
De coisas fáceis de ser ver até coisas que a gente vê porque talvez já esteja até “vendo coisas”.
Decidi dividir todas, e você resolve o que ver.
Vi que muito está sendo investido para transformar esse enorme movimento, ao menos no Rio, em um movimento de “fora Cabral” e “fora Paes”. Acho isso desinteressante pra todo mundo, a não ser para quem está morrendo de vontade de pegar os lugares deles. Acho esse foco, inclusive, muito nocivo por dois motivos principais: primeiro porque transforma o movimento popular em propaganda gratuita de adversários do Cabral e do Paes, segundo porque muda a nossa percepção de vitória e passaremos a achar que tirar o governador e o prefeito para colocar outros dois políticos no lugar sejam, em si mesmos, vitórias da população. Não são.
Eu disse que a propaganda é gratuita? Falha minha, não é gratuita. É pior: custa o preço de três bombas, que eu compro, jogo em você, digo que foi a “polícia do Cabral” (até porque, antes do Cabral, a polícia sempre foi amigona das manifestações) e, com isso, você vota em mim.
Simples assim. Eu te bombardeio, você vota em mim.
Se queremos investimento em Educação e Saúde, só isso pode ser vitória. Se o Cabral e o Paes fizerem os investimentos, ótimo: vitória. Depois decidimos o que vai ser deles, mas foi vitória.
Mas precisa ficar entendido que, se queremos que a Saúde e a Educação sejam levadas a sério, e o resultado é que ajudamos a tirar dois políticos para a entrada de outros dois, sem qualquer mudança real em direção às nossas necessidades, então nada mudou. Não houve vitória alguma.
Vi que existe algo muito nefasto por trás da transformação deste movimento, que começou como apartidário, em um movimento de antipartidarismo. Se um movimento é apartidário, então TODOS os partidos são, necessariamente, bem vindos, vez que o movimento não pertence a um partido específico, e é, até onde se quer acreditar, democrático.
Se não houvesse partidos, é muito improvável que pudéssemos fazer qualquer manifestação, exigir o cumprimento de qualquer direito. Se não houvesse partidos, é improvável até que tivéssemos internet, ou, pelo menos, internet nos moldes que temos.
Não simpatizar por algum partido, ou qualquer partido, é direito seu. Impedir um ou mais partidos de participarem de um movimento nacional democrático, não é.
Se o movimento é democrático, a participação de todos os partidos deve ser ENCORAJADA, e a tolerância, obrigatória.
Vi, inclusive, esse “algo muito nefasto”, que eu desenhei na minha cabeça quando começaram a onda de “abolir partidos, usar branco, vestir a bandeira e cantar o hino o tempo todo”, começou a ganhar contornos de nanquim quando eu vi o PMB (www.partidomilitar.com.br) e a Comissão Especial para regulamentar os casos de eleição indireta (http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/06/comissao-regulamenta-eleicao-em-caso-de-vacancia-da-presidencia.html). Não é que não possa acontecer, claro, o PMB pode existir, se representa uma fatia da população. A comissão tinha que ser composta, pois estava pendente pela própria Constituição, mas, sei lá, exatamente nesse momento?
Talvez eu esteja louco, mas, pra mim, todos esses ingredientes, juntos e misturados, lembram um filme que eu nem vi, porque foi censurado.
Vi que a mídia tem se esforçado sobremaneira para colocar que “manifestantes” e “população” são seres de espécies totalmente diferentes, de maneira que os primeiros são até objeto de estudo dos outros (“não perca no Globo Repórter desta semana. Manifestantes: quem são eles? O que eles querem?”), e que, todos os dias, mostra que continua a defender os mesmos interesses de sempre: o compromisso não é com a verdade, não é com a informação, não é com o povo. E isso não se limita à Globo, claro.
Vi muito mais coisas que ainda estou até tentando entender, mas quero muito saber também o que você vê. Juntando as visões, veremos um quadro maior e melhor.
Posted by Mig Mendes. Posted In : Divagando

Como diz o Velho Deitado: não há melhor forma de começar um ano do que a sensação de ter saldado todas as dívidas do anterior.
É isso aí, pessoal! Antes de mais nada, Feliz Ano Novo pra todo mundo!