Não combata a violência: alimente a paz.
Faz uns três anos que escrevi um certo texto. Lembro que estava assombrado com um crime terrÃvel (no caso, o do menino João Hélio). O problema é que eu não sabia o que me assombrava mais: a selvageria dos criminosos ou a da reação popular ao crime. Escrevi mais para arrumar as idéias dentro da minha cabeça do que para a leitura propriamente dita. Do meu ponto de vista, a loucura da opinião pública era tanta (inclusive entre formadores de opinião) que eu chegava realmente a questionar se o louco não era eu.
Aliás, como diz a minha sapientÃssima mãezinha: "Num mundo louco, o lugar do são é no hospÃcio. Num mundo injusto, o lugar do justo é na cadeia". Isto dito, acho que nosso mundo está perfeitinho pra nós.
Como essa semana acabei tendo uma discussão ferrenha exatamente pelas mesmas questões abordadas, achei por bem transcrevê-lo aqui e - finalmente - dar-lhe a devida publicidade.
Enfim, é isso. E isso também sou eu.
Boa leitura,
Abraço a todos.
Quando ouço os comentários das pessoas a respeito desse caso – o de um garotinho de seis anos que foi arrastado por 7 km em um carro para, finalmente, ser abandonado pelos marginais, morto, em uma rua qualquer – e as ouço dizer as coisas que deveriam ser feitas aos bandidos, não consigo pensar na situação que é uma constante em nós, como seres humanos: o bem não nos contagia, mas o mal o faz de imediato.
Quanto a mim, não acho que devamos fazer-lhes mal algum - além das penas previstas em lei - apesar da minha revolta. E o motivo é o desespero de provar a mim mesmo uma verdade simples: nós não somos como esses animais.
Veja como as coisas se encadeiam na minha cabeça:
Premissa: O cidadão comum tem boa Ãndole, e jamais seria capaz de matar, da maneira mais sanguinária e cruel possÃvel, outra pessoa – e ainda se deleitar com isso.
Agora, se eu admito que devemos linchar esses porcos dementes pelo ato insano, bestial e até herético que cometeram; se eu realmente penso que isso é o mais puro fundamento da justiça, então minha premissa está errada. A forma mais correta de expressá-la seria algo como:
Premissa: Qualquer pessoa, por melhor Ãndole que possua, se submetida a determinada situação, forçosamente se tornará um animal vil e trucidará o alvo de seu ódio. Sentirá prazer neste ato e jamais será acometida de qualquer remorso. Tudo isso ocorrerá a despeito de quaisquer bons valores que ela possua, pois essa atitude lhe será imposta pela sua condição humana.
Soa familiar?
Pois bem, somemos dois mais dois: satisfeitas as condições necessárias, toda pessoa cometerá chacinas grotescas, não por ser má, mas porque isso lhe é imposto como ser humano, logo, não podemos mais julgar esses patifes por seus atos sem antes avaliarmos as condições em que viviam antes, as atrocidades que já viram, as pequenas tragédias a que cada um foi submetido durante a infância e a adolescência, etc, etc. Em outras palavras, qualquer maldade, por mais indizivelmente imoral que seja, será honrada, pelos motivos adequados.
Para mim, isso sim é absurdo.
Eu preciso, e imagino que todos nós precisemos, acreditar que nada será capaz de nos tornar como esses animais. Preciso crer que nenhuma circunstância será capaz de provar que, lá no fundo, eu sou feito do mesmo material que eles, e capaz de cometer os mesmos atos, semelhantemente desprovido de piedade. Necessito dessa certeza para ter o direito de julgá-los e dizer: "esses facÃnoras não devem viver entre nós! Eles não são como nós, não são seres humanos, na acepção da palavra! E nós, seres humanos, nunca, de maneira alguma, seremos como eles".
Neste momento, senão todos, a maioria dos leitores deve estar pensando: "você só escreve essas coisas porque não foi o seu filho".
Eu lhes digo: vocês têm toda razão.
Se fosse o meu filho, provavelmente a minha vontade seria atá-los, cada um, a um poste e, munido de um alicate de corte, começar retirando o dedo mindinho esquerdo de um. Fritaria esse dedo em uma frigideira, dando-lhe, em seguida para comer. E ainda diria: "se você comer os cinco da mão esquerda sem birra, eu te mato. Se fizer muita manha, vai comer os da mão direita também".
No momento em que eu decidisse por agir assim, por me nivelar a eles, por me tornar o demônio que desejo combater, o que eu precisaria era de uma sociedade que me dissesse: "Ei! Você não é um deles! Não ceda! Não deixe que eles vençam! Não deixe que as coisas sejam do jeito deles! Honre seu filho! Não se torne um deles".
E não de uma sociedade que me diga: "Ah... isso é o pior que você pode pensar? Seja mais criativo! É o momento da besta, faça seu pior! Temos ótimas idéias, caso necessite!".
Expondo esta visão para uma grande amiga, ouvi o seguinte: "Ah, Miguel, é muito difÃcil não se colocar no lugar de uma mãe ou um pai em um momento como esse. Principalmente quando se tem filhos. O que você propõe é utopia." (ela é mãe de uma linda menininha).
O discurso dela parece adequado, mas me inspirou medo, por vários motivos, vou explicar:
Em primeiro lugar, o mais óbvio: a não ser que se tenha passado pela mesma situação, é impossÃvel se colocar no lugar de uma mãe ou um pai em um momento como esse, tendo perdido o que perderam, da forma como perderam, tendo visto as coisas que viram. É surreal pensar que se pode sequer imaginar como é. Quando alguém diz algo assim, simplesmente nem tentou pensar direito no que aconteceu.
Em segundo lugar, se eu me revolto porque me coloco no lugar da outra pessoa, não estou sofrendo por ela, mas por mim. Meu sofrimento nada tem a ver com a morte daquele garotinho – eu nem conhecia o garotinho, não nutria qualquer afeto por ele. Meu sofrimento é pensar que algo assim pode acontecer com alguém que gosto, ao invés de a um estranho. Sofro pela possibilidade de algo assim se abater sobre mim e, baseado nessa possibilidade, arrogo-me o direito de sofrer e me revoltar como os pais do garotinho. Isso é loucura: a situação para mim é só uma hipótese, um mau pensamento, para ele é, real e sempre será.
Essa arrogância nos leva ao terceiro ponto: na maioria das vezes, colocar-se no lugar dos outros ajuda-nos a evitar o egoÃsmo. Neste caso, ocorre justamente o oposto: os pais sofrem por sua perda real e a sociedade, em lugar de ampará-los, põe-se a sofrer por uma perda imaginária. Isso está errado. Se alguém sofre muito – a ponto de começar a se desligar da realidade, de perder o raciocÃnio e a fé no que quer que seja – é nosso dever sufocar nossos sentimentos e tentar ver algo que possamos fazer para tentar confortar esse alguém e trazê-lo de volta à razão. E não incentivá-lo à loucura e acelerar seu passo rumo à descrença e ao desespero.
O quinto e último ponto, o que me dá mais medo, são algumas palavras-chave utilizadas pela minha amiga em seu discurso: "difÃcil" e "utopia".
Nos dias de hoje, essas palavras, quando associadas a um paradigma social, estão cada vez mais ligadas. Melhor: hoje em dia, a mudança de um paradigma social precisa ser cada vez menos "difÃcil" para se tornar "utópica".
Isso tem muito a ver com o fato de haver cada vez mais pessoas compondo as sociedades, é verdade, mas acredito ser, antes, fruto do fato de o progresso ter feito seu trabalho ao contrário: ao invés de nos libertar, nos trazer conforto e nos dar mais tempo para viver a vida e pensar sobre o que é importante, ficamos cada vez mais escravizados. Precisamos, cada vez mais, do raciocÃnio simplista e das respostas prontas da mÃdia para podermos dizer, aos outros e a nós mesmos, que temos opinião sobre algo – porque não temos tempo algum para pensar. Da mesma forma, precisamos de diversões cada vez mais intensas e rápidas para fingir que estamos sendo felizes. Na verdade, não temos tempo para sutilezas – ou mesmo para viver.
Por isso, se uma mudança de paradigma parecer minimamente "difÃcil", será "utópica": não temos tempo para o esforço necessário a ela.
O maior absurdo disso tudo é que não vemos o esforço que fazemos para não termos de despender este "esforço".
Para mim, esforço é ter que inventar, a cada dia, uma maneira nova de tentar sobreviver à violência infernal.
Esforço é ser normal vivermos à base de remédios porque respiramos um ar cada vez mais irrespirável e comemos uma comida cada vez mais envenenada – na fonte.
Esforço é nos condicionarmos cada vez mais a lembrar de eventos, enquanto esquecemos cada vez mais rápido os nossos sentimentos.
Esse é o preço que pagamos por ser tão difÃcil fazer esforço.
Posted by Mig Mendes. Posted In : Divagando
Como diz o Velho Deitado: não há melhor forma de começar um ano do que a sensação de ter saldado todas as dÃvidas do anterior.
É isso aÃ, pessoal! Antes de mais nada, Feliz Ano Novo pra todo mundo!
Mermão, se você não tem nenhuma guia aberta do Youtube agora, tenha! Você vai querer ver esses moleques!
Fui ontem ver 2012. Tá bom, eu sei que TODO MUNDO já viu e já tem sua própria opinião, mas o filme tem uma incoerência que não pode passar em branco. Além do mais, quem manda nisso aqui sou eu!
Encontrei uma parada ontem no Twitter e achei maneira: o Formspring.