Ninguém pode imaginar o que não viveu. Nem twittar o que viveu.
Posted by Mig Mendes on Sunday, December 20, 2009 Under: Divagando
Tenho uma amiga no trabalho que é naturalmente sensacionalista. Sério mesmo, sempre que não está efetivamente trabalhando, ela procura notícias impactantes e nos transmite de maneira bombástica. Não sei se ela é assim porque faz marketing ou se faz marketing porque é assim, mas uma coisa é certa: eu adoro o jeito dela.
Outro dia surgiu uma dessas notícias-bomba que me deixou intrigado. Ela disse: "Gente! Olha isso! O garoto se afogou na piscina e a mãe ficou twittando enquanto ele morria!"
Aí eu parei: isso só podia ser sacanagem. Não era.
Ou era mais ou menos (viu? É assim que a minha colega faz!). A notícia,em síntese, é a seguinte (para ler na íntegra clique aqui): Uma mulher encontra seu filho de 2 anos boiando de barriga pra baixo na piscina e manda seu outro filho, de 11, chamar a emergência. Depois de 30 minutos, enquanto a equipe ainda lutava para reanimar o garoto, a mãe postou no Twitter: "Por favor rezem como nunca, meu filho de 2 anos caiu na piscina". Cinco horas depois, quando foi anunciada a morte do menino, ela postou "Me lembrando do meu menino de ouro", e postou também uma foto do filho.
O fato causou revolta na comunidade blogueira, que condenou a atitude da mãe por utilizar o Twitter como veículo para divulgação da morte do filho.
Acho tudo isso um absurdo. Vamos a outros fatos que as pessoas não levaram muito em consideração:
- A Mãe, Shellie Ross, trabalha em uma empresa de internet;
- Ela tem mais de cinco mil seguidores em seu Twitter;
- Shellie mantém um blog chamado Blog4Mom, dedicado a orientação dos pais em relação aos desafios de criar seus filhos.
Então vejamos: Shellie leva uma vida onde "respira" internet o tempo todo. Ela tem muitos seguidores no Twitter porque integrou o microblog ao seu blog, e assim presta um serviço aos outros pais através do dois veículos. Pra mim, não é nem um pouco estranho constatar que as milhares de pessoas a quem Shellie serve diariamente sejam, em sua vida, uma presença mais real do que outras pessoas com quem ela topa ocasionalmente, mas não tem responsabilidade alguma.
Estou firmemente convicto de que nenhuma pessoa que não tenha perdido um filho em circunstância trágica possa emitir um julgamento acertado sobre conduta e etiqueta em uma circunstância como essa. Como isso, graças a Deus, vale pra mim também, posso apenas supor sobre o que motivou Shellie a twittar naquele momento: seu desespero e seu filho.
Enquanto os paramédicos tentavam reanimar seu filho, Shellie se viu totalmente impotente diante da situação mais emergencial que já enfrentou na vida e percebeu que a única coisa a fazer por seu menino era orar. Em sua ignorância, ela imaginou que as 5 mil pessoas que a seguiam e usufruíam gratuitamente de seus serviços pudessem ter um comprometimento recíproco com ela. Pediu, então, para que orassem, afinal, cinco mil orações devem valer mais do que uma. Tola.
Quando perdeu seu filho, a mesma mãe imaginou que entre aquelas cinco mil pessoas que estavam orando por seu filho junto com ela (tola), alguma pudesse ter qualquer palavra que amenizasse, qualquer pouco que fosse, o sofrimento irresistível que sentia.
Enquanto isso, o olimpo formado pelos sábios da comunidade blogueira (putz), discutem sobre qual seria a forma mais racional, ética, bonita e socialmente adequada para uma mãe agir enquanto seu filho morre.
Ao meu ver, talvez o único erro de Shellie tenha sido decidir não responder às acusações que recebeu. Ter preferido se isolar e pedido simplesmente "deixem-me em paz". Pô, pelo menos um "Shame on you, bloodsuckers! Shame on you!" ela devia ter mandado. Talvez ela não tenha pensado nisso porque tinha mais no que pensar, quem sabe?
Talvez um dia, quando a dor maior passar, quando a poeira baixar e Shellie pense com mais tranquilidade sobre o que aconteceu, ela mesma diga: "Caramba! Como eu estava doida naquele momento!"
Mas isso é só suposição. Eu nunca perdi um filho pra saber ao certo.
Abraços a todos.
In : Divagando
Tags: tosco ridículo twitter mãe morte julgar babaca babaquice
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